A Inteligência Artificial (IA) está a dar um passo decisivo na sua evolução tecnológica, expandindo o seu âmbito para além da simples geração de textos e respostas. A nova fronteira da tecnologia reside na capacidade de executar tarefas diretamente em plataformas digitais e programas informáticos através do conceito conhecido como computer use, funcionalidade que permite aos sistemas interpretar o conteúdo visual de um ecrã, clicar em botões, escrever e navegar de forma autónoma.
Esta inovação viabiliza a automação de operações repetitivas em ambientes virtuais, tais como o preenchimento de formulários, a consulta de bases de dados e a interação com páginas web que não possuem interfaces de programação de aplicações (APIs) destinadas à troca direta de dados entre programas.
Avanço no mercado global e funcionamento da tecnologia
A capacidade de navegação autónoma ganhou destaque internacional em Outubro de 2024, altura em que a Anthropic disponibilizou uma versão beta pública deste recurso no modelo Claude 3.5 Sonnet. Seguidamente, outras gigantes do setor tecnológico, incluindo a OpenAI, a Google e empresas chinesas de tecnologia, desenvolveram soluções com funcionalidades semelhantes.
O modelo de funcionamento do computer use assenta num ciclo contínuo de observação e ação. Inicialmente, o sistema processa uma captura do ecrã para identificar os elementos relevantes da interface. Em seguida, calcula a intervenção necessária, que pode envolver cliques do rato, introdução de texto, rolagem de páginas ou utilização de teclas de atalho.
Apesar de simular o comportamento humano no ecrã, a IA não opera dispositivos físicos. Os comandos são enviados diretamente para o ambiente informático, habitualmente através de um navegador de internet ou de uma máquina virtual. Após a realização da ação, uma nova captura de ecrã é processada para verificar se a tarefa foi concluída com sucesso e definir os passos seguintes.
Aplicações práticas e desafios de segurança
Esta funcionalidade revela-se especialmente eficaz no contexto empresarial para integrar e automatizar processos em sistemas antigos ou portais públicos que não disponibilizam ligações técnicas diretas. Ao ser integrada em agentes de IA — sistemas projetados para planear e gerir sequências de tarefas com autonomia —, a tecnologia permite não apenas executar passos sequenciais, mas também analisar resultados e corrigir falhas operacionais em tempo real.
No entanto, a atribuição de controlo direto sobre interfaces digitais a sistemas inteligentes coloca desafios significativos no âmbito da segurança cibernética. Erros de interpretação por parte do sistema podem resultar na execução indesejada de comandos, enquanto instruções maliciosas disfarçadas em plataformas web podem tentar manipular a atuação da IA. Por essa razão, especialistas defendem a imposição de restrições de acesso, a manutenção de supervisão humana contínua e a exigência de confirmações manuais para ações sensíveis, tais como transferências financeiras, alteração de dados estratégicos ou eliminação de ficheiros.