O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, acusou abertamente os países ocidentais de tentarem aprofundar a dependência financeira dos Estados africanos. As declarações foram proferidas durante a abertura da III Cimeira Rússia-África, que teve início esta quarta-feira (28) na capital russa, Moscovo. Na mesma ocasião, o líder do Kremlin comprometeu-se a expandir as exportações de cereais e fertilizantes russos para o continente africano.
Durante a sessão plenária do evento, Putin criticou duramente as condições impostas pelas instituições ocidentais, argumentando que a concessão de empréstimos com taxas de juro elevadas sufoca os planos de desenvolvimento a longo prazo de África. Segundo o chefe de Estado russo, a construção de uma ordem mundial multipolar é um processo irreversível, apesar da resistência exercida por determinadas potências globais. Em contrapartida, sublinhou a vontade de Moscovo em consolidar parcerias baseadas na igualdade e no respeito mútuo.
Reforço do Abastecimento Agrícola e Parcerias Comerciais
Atualmente, mais de 40 nações africanas já dependem do fornecimento russo de cereais e fertilizantes. Dados apresentados revelam que, apenas nos primeiros nove meses de 2026, a Rússia canalizou 13 milhões de toneladas de produtos agrícolas para África. Em paralelo, verificou-se uma evolução no fluxo inverso: as exportações agrícolas do continente africano para o mercado russo representam já 8% do consumo local, uma quota que Moscovo tenciona continuar a ampliar.
Além da vertente comercial, a cooperação bilateral abrange o setor do ensino superior, registando-se um aumento expressivo no número de estudantes africanos nas academias russas. Putin aproveitou também o fórum para exortar as companhias aéreas do continente a estabelecerem rotas diretas para a Rússia, facilitando a circulação e o intercâmbio direto.
Presença de Alto Nível e Acordos Estratégicos
A decorrer até esta quinta-feira, a cimeira dedica a sua agenda a debates focados em redes de transporte, preservação da memória histórica e mecanismos de combate ao neocolonialismo, contando com a integração ativa de representantes moçambicanos. O programa contempla duas sessões plenárias e culminará com a validação de três documentos fundamentais: uma declaração conjunta para o aprofundamento da cooperação multifacetada, uma diretiva orientada para a Inteligência Artificial (IA) e um plano de ação estruturado para o Fórum de Cooperação Rússia-África relativo ao período 2027-2029.
Está igualmente programada a oficialização de, pelo menos, 33 instrumentos jurídicos, englobando acordos intergovernamentais, memorandos de entendimento e contratos no domínio comercial.
Representação Lusófona em Moscovo
O evento reúne comitivas de 48 países africanos, das quais 22 são chefiadas diretamente por chefes de Estado. No universo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Moçambique e a Guiné Equatorial fazem-se representar no mais alto nível governamental. Por seu turno, as delegações de Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau integraram o certame representadas pelos respetivos titulares das pastas ministeriais.