Aos 81 anos de idade, a encenadora, criadora e formadora Manuela Soeiro é homenageada esta terça-feira, 20 de Outubro, numa cerimónia em que a Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) atribui o seu nome à sala Mini-Teatro. A distinção enquadra-se nas celebrações dos 50 anos da UEM e premeia uma trajectória de mais de cinco décadas inteiramente devotadas ao desenvolvimento e consolidação do teatro moçambicano.
Um Percurso Construído Entre os Palcos e a Maternidade
A consolidação da carreira de Manuela Soeiro exigiu renúncias e sacrifícios pessoais significativos. A dramaturga ergueu a sua caminhada artística dividindo-se entre os palcos e a criação dos seus dois filhos, que frequentemente dormiam nos bancos do Teatro Avenida enquanto a mãe trabalhava. Com raízes familiares que se dividem entre o Norte e o Sul do país, Soeiro assumiu sempre uma profunda identificação com a identidade e a soberania nacional moçambicana.
O seu envolvimento com o meio cultural começou ainda na infância. Filha de um pai entusiasta das artes na Ilha do Ibo, que dominava línguas como Emacua, Chimakonde e Kimwani, a artista vivenciou desde cedo a pluralidade cultural. Após a morte do pai, quando tinha entre 5 e 6 anos, mudou-se para Lourenço Marques e, posteriormente, frequentou um colégio interno na Namaacha, onde assimilou práticas manuais e expressões artísticas tradicionais.
Do Ensino de Educação Física à Criação do Mutumbela Gogo
Formada originalmente em Educação Física, Manuela Soeiro exerceu o magistério antes de se entregar em exclusivo às artes cénicas. O ponto de viragem ocorreu em 1975, quando ingressou em grupos dinamizadores de bairros e fábricas, criando peças de intervenção popular a partir de narrativas do quotidiano.
Durante o período das nacionalizações, assumiu a gestão do Teatro Avenida após proposta do então Ministro da Cultura, Luís Bernardo Honwana, transformando o espaço degradado num dinâmico centro cultural. Na década de 1980, marcou a fundação do grupo Mutumbela Gogo com a montagem da peça «Nove Hora», baseada num poema de Rui Nogar sobre o subúrbio da Malanga. O espetáculo permaneceu em cena durante um ano com lotações esgotadas aos fins-de-semana.
Projecto Sabura e Activismo Social
Em 1982, a dramaturga adquiriu um terreno junto do Conselho Municipal da Cidade de Maputo para concretizar o Centro Cultural Sabura. O espaço foi baptizado em homenagem à sua ama de infância, natural da Ilha do Ibo, sendo concebido como um núcleo de formação cénica, preservação da memória e integração artesanal.
A actuação de Manuela Soeiro destacou-se igualmente pelo forte activismo político e social. Através de produções como «Um Inimigo do Povo», abordou figuras e momentos marcantes da história nacional, incluindo Eduardo Mondlane, Samora Machel, Siba-Siba Macuácua e Carlos Cardoso. Em parceria com o jornalista Marcelo Mosse, instituiu uma tradição de homenagem anual a Carlos Cardoso a 22 de Novembro. Noutra frente de intervenção, a peça «Sexo? Sim, Obrigado! ou a Arte de Ganguissar» quebrou tabus sociais sobre educação sexual no país.
Ao reflectir sobre a sua trajectória e os valores de unidade territorial, a encenadora reafirma a sua posição contundente contra qualquer tentativa de divisão da nação, reiterando o compromisso de vida com a integridade cultural e geográfica de Moçambique.