No dia 27 de Outubro de 2026, a Tanzânia oficializou a sua primeira descoberta de gás natural em mais de dez anos. O achado ocorreu no poço Kasa-1X ST2, localizado na concessão de Mnazi Bay, em Mtwara, a poucos quilómetros da fronteira com a província moçambicana de Cabo Delgado. A operação foi conduzida pela estatal TPDC em parceria com a petrolífera francesa Maurel & Prom, com um volume estimado em 223 mil milhões de pés cúbicos (6,3 mil milhões de metros cúbicos).
Apesar de o montante significar um acréscimo de 0,4% em relação às reservas tanzanianas pré-existentes de 57,5 biliões de pés cúbicos (TCF), o contexto geográfico traz ramificações diretas para a região. Na mesma Bacia do Rovuma, Moçambique detém cerca de 160 TCF de reservas provadas, mantendo um volume quase três vezes superior ao do país vizinho. O impacto da nova descoberta assenta, assim, na disputa estratégica pela atração de investimentos internacionais e por mercados de Gás Natural Liquefeito (LNG).
Ameaças e Concorrência Directa
A expansão tanzaniana estabelece uma concorrência directa na captação de investimento estrangeiro junto de multinacionais do sector. Parada há vários anos, a negociação de um projecto de 42 mil milhões de dólares para um terminal de exportação em Lindi — envolvendo a Shell, Equinor e ExxonMobil — poderá alcançar a Decisão Final de Investimento (FID) entre 2026 e 2027. Caso se concretize, a Tanzânia prevê exportar 15 milhões de toneladas por ano a partir de 2031-32, competindo com o Mozambique LNG da TotalEnergies, cujas obras foram retomadas no início de 2026, e com o Rovuma LNG.
Em paralelo, os projectos em terra (onshore) na zona de Mnazi Bay beneficiam de infraestruturas já existentes, como gasodutos e centrais eléctricas. O governo tanzaniano negoceia com quatro investidores para iniciativas de GNL em pequena escala, projetando o início da produção para Novembro de 2026.
Oportunidades e Cenários Regionais
Por outro lado, a validação de novas acumulações comerciais reforça o potencial de investimento em toda a extensão da Bacia do Rovuma. Enquanto o gás de Mnazi Bay se destina maioritariamente ao consumo interno da Tanzânia, Moçambique consolida-se no mercado de exportação através do Coral Sul FLNG e prepara a expansão com o Coral Norte e o Mozambique LNG, visando integrar o grupo dos maiores exportadores mundiais.
Perspetiva-se ainda a criação de um corredor industrial regional impulsionado pela linha de alta tensão Tanzânia-Zâmbia, ligada ao Southern African Power Pool, num cenário em que a procura global de LNG deverá crescer mais de 25% até 2030. Em termos de emprego, projeções indicam que a fase de construção de infraestruturas poderá mobilizar um pico de 35 mil postos de trabalho na Tanzânia e 50 mil em Moçambique, promovendo a partilha de mão-de-obra qualificada entre os polos de Palma, Pemba e Mtwara.
De acordo com análises especializadas compiladas por Zeferino Martins a 30 de Outubro de 2026, o grande desafio moçambicano consiste na capacidade de converter eficientemente as suas vastas reservas em infraestrutura operacional e receita económica, num mercado regional em rápida evolução.