A introdução e expansão da inteligência artificial (IA) tem o potencial de elevar o Produto Interno Bruto (PIB) de Moçambique em 324 milhões de dólares norte-americanos ao longo de um período de dez anos. Contudo, a materialização efetiva desse dividendo económico depende diretamente da superação de obstáculos estruturais como o défice no fornecimento de energia elétrica, as limitações na conetividade à internet e as lacunas no sistema formativo da juventude, segundo as conclusões do Ayre Index 2026, avaliação que mede a preparação dos jovens dos países da Commonwealth para capturar oportunidades proporcionadas pela IA.
Posicionamento regional e défice de prontidão
Na classificação global, Moçambique ocupa a 44.ª posição entre 56 nações analisadas, obtendo uma pontuação de 38,9 pontos numa escala até 100 — patamar que se situa abaixo do limiar mínimo de prontidão fixado em 53 pontos. De todo o grupo avaliado, somente 15 Estados alcançaram ou superaram esse índice de referência, posicionando Moçambique no bloco de países que enfrentam severos desafios para preparar a camada jovem para a transição digital em curso.
As carências de infraestruturas básicas figuram entre os principais entraves. Atualmente, apenas 36,9% da população moçambicana tem acesso a eletricidade, cerca de metade da juventude possui telemóvel e apenas 35% dos inquiridos indicaram utilizar a internet com regularidade. O custo elevado dos pacotes de dados móveis face ao rendimento disponível dos agregados familiares constitui outro elemento restritivo ao uso pleno de ferramentas tecnológicas avançadas.
Privacidade digital e condições no mercado de trabalho
O ambiente digital nacional também reflete apreensões quanto à segurança e proteção de dados. Um levantamento internacional relativo a 2021 revelou que 79,3% dos utilizadores moçambicanos de internet com idades entre 15 e 29 anos demonstravam grande preocupação com o roubo de dados pessoais na rede e nas plataformas sociais — o índice mais elevado observado entre 27 países da Commonwealth com indicadores comparáveis. No pilar referente a direitos, segurança e participação, o país registou apenas 1,8 em dez pontos possíveis.
No mercado laboral, a distância em relação às ocupações mais beneficiadas pela IA permanece acentuada. O levantamento indica que 80,5% dos jovens empregados vivem em situação de pobreza, num cenário dominado pela informalidade e pela reduzida expressão de profissionais com idades entre 25 e 29 anos em funções altamente qualificadas. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam igualmente que apenas 0,3% da força laboral jovem (15 a 24 anos) exerce funções nas duas categorias de ocupação com maior exposição à IA generativa, uma das taxas mais baixas entre as nações estudadas.
Cenários económicos e iniciativas de formação
Apesar do panorama desafiador, a demografia nacional oferece espaço para ganhos expressivos. Contando com cerca de 9,7 milhões de cidadãos na faixa etária dos 15 aos 29 anos, o país pode alcançar o aumento projetado de 324 milhões de dólares no PIB num horizonte de dez anos sob um cenário moderado. Em projeções alternativas elaboradas pelo Ayre Think Tank com base nos modelos de impacto económico do Fundo Monetário Internacional (FMI), a variação oscila entre 156 milhões de dólares no modelo conservador e 491 milhões de dólares no cenário otimista. Os valores traduzem potenciais incrementos no volume total do PIB ao final da década analisada, e não ganhos anuais contínuos ou receitas pagas diretamente aos jovens.
De acordo com Calvin Ayre, fundador do centro de estudos, as transformações provocadas pela IA não constituem uma corrida exclusiva das economias ricas, desde que os jovens obtenham competências adequadas para empreender, produzir projetos e integrar o mercado de trabalho. No âmbito institucional moçambicano, destacam-se esforços recentes como a inauguração, em outubro, de uma incubadora de empreendedorismo juvenil em Nampula — juntando-se aos espaços já operacionais em Maputo e Pemba — e o anúncio pelo Ministério da Educação e Cultura da iniciativa MAZA IA, desenhada em colaboração pela MOZEDU e a Vodacom Moçambique para formação escolar.
Para acelerar a integração da juventude, o relatório indica cinco intervenções essenciais: ampliação do acesso fiável e acessível à tecnologia, reforço curricular com competências aplicadas, fortalecimento da ligação entre formação e emprego, desenvolvimento de ferramentas de IA adaptadas a línguas e contextos locais, e sistemas de proteção institucional. Como sublinha o Professor C. Justin Robinson, da Five Islands Campus da University of the West Indies, o objetivo passa por capacitar a juventude a participar na governação e aprimoramento dessas ferramentas, ultrapassando a condição de mera consumidora tecnológica. O levantamento compilou dados de 1.128 fontes de pesquisa, avaliando as condições de 732 milhões de jovens da Commonwealth através de sete pilares e 102 indicadores operacionais.