A recente decisão da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) de expulsar António Muchanga das suas fileiras por alegadas razões disciplinares reabriu a reflexão sobre o impacto das purgas internas na trajectória do partido. O actual membro da Assembleia Provincial de Maputo, que já anunciou a intenção de recorrer à justiça, junta-se a uma lista histórica de figuras de elevado capital político afastadas da agremiação ao longo das últimas décadas.
Com mais de três décadas de filiação, António Muchanga figurava como um dos militantes mais experientes da organização. Ao longo do seu percurso, cumpriu três mandatos como deputado na Assembleia da República — somando 15 anos de trabalho parlamentar —, atuou como conselheiro de Estado e desempenhou as funções de porta-voz de Afonso Dhlakama, líder histórico do partido falecido em 2018. A sua popularidade ficou patente nas votações expressivas obtidas nas eleições autárquicas de 2018 e 2023 no município da Matola, bem como nos pleitos para governador da província de Maputo em 2019 e 2024.
O histórico de afastamentos estratégicos
O cenário actual evoca episódios anteriores que moldaram a configuração política do país. No ano 2000, sob a liderança de Afonso Dhlakama, o partido expulsou Raúl Domingos, que havia sido o negociador do Acordo Geral de Paz em 1992 e desempenhava o papel de número dois da organização. Acusado de alegada traição associada a acções na empresa Águas de Moçambique — responsável na altura pela gestão do abastecimento em cinco das principais cidades do país —, Domingos viria a fundar o Partido para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (PDD). Nas eleições presidenciais em que concorreu, obteve 2,7% dos votos. Atualmente embaixador de Moçambique no Vaticano, a sua saída resultou na diminuição da capacidade técnica e negocial da bancada parlamentar da oposição.
Em 2008, o processo repetiu-se com Daviz Simango. Após um mandato autárquico entre 2003 e 2008 na cidade da Beira, Simango viu o partido preterir a sua recandidatura em favor de Manuel Pereira. O filho de Uria Simango optou por concorrer como independente, o que motivou a sua expulsão. A consequência eleitoral foi imediata: Simango não só venceu o pleito autárquico, como fundou o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), elegendo oito deputados para a Assembleia da República e atraindo quadros como Geraldo Carvalho e Ismael Mussa.
Transformações no cenário eleitoral recente
Mais recentemente, em Junho de 2024, a saída de Venâncio Mondlane marcou outro momento decisivo. Após desentendimentos com a cúpula liderada por Ossufo Momade e o impedimento de participação no congresso realizado em Alto Molócuè, na província da Zambézia, Mondlane apresentou a sua renúncia. Candidatando-se à presidência com o apoio do partido Podemos — após a inviabilização da coligação CAD —, alcançou o segundo lugar nas votações e impulsionou a eleição de 43 deputados para o parlamento, alterando substancialmente o equilíbrio de forças da oposição.
Debate sobre influências externas
Analistas políticos continuam a discutir os factores por trás dessas divisões. Enquanto parte dos observadores atribui as crises a divergências internas e decisões da liderança, outros sectores sugerem que actuações do sistema político e dos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE) possam ter influenciado momentos de tensão, com vista a fragilizar a coesão das forças da oposição em momentos decisivos do calendário eleitoral nacional.