A exploração de gás natural na província de Cabo Delgado continua associada a sérios desafios de segurança, num cenário em que as comunidades locais ainda não sentem os benefícios tangíveis da riqueza dos seus recursos naturais. O alerta foi destacado no Relatório sobre o Estado da Paz e Segurança em África, apresentado pelo Presidente do Gana, John Dramani Mahama, no âmbito do 26.º Fórum de Tana sobre Paz e Segurança em África, realizado em Bahir Dar, na Etiópia, evento que contou com a participação do Presidente moçambicano, Daniel Chapo.
Segundo a análise apresentada por John Dramani Mahama, a população de Cabo Delgado não encara a riqueza decorrente do gás natural como um benefício nacional, mas sim como mais um indicador de marginalização. Essa exclusão económica é apontada como um dos fatores determinantes para a persistência dos conflitos e para a proliferação de tensões na região e no continente.
Quadro de análise da estabilidade continental
O documento, que faz uma radiografia minuciosa sobre a situação da paz e segurança no continente entre Janeiro de 2025 e Junho de 2026, identifica quatro pilares interligados que influenciam diretamente a estabilidade africana: a soberania sobre os recursos naturais, a transformação digital, a fragilidade institucional e a integração regional.
No que respeita a Moçambique, a avaliação sublinha a urgência de assegurar que a exploração dos recursos de gás natural reverta em ganhos concretos para as comunidades locais. O relatório sustenta que uma gestão transparente dos recursos estratégicos, combinada com a inclusão efetiva das populações nas oportunidades económicas, é indispensável para acalmar tensões e prevenir o surgimento de novos focos de violência.
Transformação digital e novas ameaças tecnológicas
Outro ponto crítico levantado refere-se aos impactos da transformação digital no ambiente de segurança. O relatório alerta para a crescente utilização de tecnologias comerciais por grupos armados extremistas, evidenciando o uso de drones de baixo custo em ações violentas. Adicionalmente, plataformas digitais como TikTok, WhatsApp e Telegram têm sido instrumentalizadas para propagar desinformação, disseminar mensagens ideológicas e recrutar jovens.
A análise conclui que as instituições africanas enfrentam ainda limitações acentuadas para acompanhar a sofisticação e a celeridade com que estas ferramentas tecnológicas são adotadas por organizações extremistas.
Disputa geopolítica e soberania económica
A competição internacional pela posse de minerais estratégicos — vitais para a transição energética global e para a expansão da economia digital — foi igualmente destacada como um fator que eleva a exposição dos países africanos à interferência de potências estrangeiras, exigindo uma soberania reforçada sobre o património natural.
O Presidente ganês defendeu que a dependência financeira compromete a autonomia dos Estados africanos na elaboração das suas próprias estratégias de defesa e desenvolvimento. Para inverter este quadro, foram propostas medidas como o fortalecimento da integração económica regional, o combate rigoroso aos fluxos financeiros ilícitos, a criação de cadeias de valor locais e a geração massiva de postos de trabalho para a juventude.
A integração e participação ativa das mulheres nos processos de consolidação da paz e nos órgãos de decisão foi igualmente assinalada como pilar fundamental para uma estabilidade duradoura, exortando-se os governos a reforçarem a presença do Estado e a cumprirem escrupulosamente os compromissos regionais assumidos.