A rápida expansão da economia digital no continente africano está a ser acompanhada por uma escalada alarmante da criminalidade informática. Em 2025, África encerrou o ano com mais de 1,1 mil milhões de subscrições móveis, cerca de 570 milhões de utilizadores de Internet e movimentações superiores a 1,1 biliões de dólares em transacções digitais. Contudo, a aceleração destas tecnologias superou a capacidade de resposta das infraestruturas de segurança, da legislação e dos órgãos de investigação, transformando o cibercrime num mercado transnacional altamente estruturado.
Aceleração dos Prejuízos e a Mercantilização do Crime Digital
Dados relativos à realidade de 36 países continentais, onde se inclui Moçambique, revelam que os prejuízos directos associados a crimes digitais no continente mais do que duplicaram entre 2024 e 2025, saltando de 192 milhões para 484 milhões de dólares. No mesmo período, o número de vítimas identificadas subiu drasticamente de 35 mil para 87 mil. As estimativas globais apontam para uma factura económica ainda mais pesada, calculada em pelo menos 5 mil milhões de dólares em danos directos em África durante o ano passado.
A transformação do sector criminal introduziu o conceito de cibercrime como um serviço (cybercrime-as-a-service – CaaS), permitindo que indivíduos com escassos conhecimentos técnicos comprem ferramentas, credenciais e infraestruturas na Internet clandestina para realizar operações de elevado impacto. A Inteligência Artificial (IA) emergiu como o principal catalisador deste cenário, tendo sido utilizada em 55% dos casos analisados em 2025 para automatizar a identificação de alvos, criar mensagens de phishing, falsificar identidades e contornar sistemas de segurança.
Infraestruturas Críticas sob Ataque Directo
O ataque por sequestro de dados (ransomware) deixou de ser uma ameaça focada apenas na extorsão financeira pontual para se tornar num risco sistémico contra a economia continental. Hospitais, empresas de energia, redes de telecomunicações, transportes e serviços públicos têm sido alvos preferenciais devido ao elevado impacto que a interrupção destas actividades causa na sociedade.
A região da África Austral registou a maior exposição a este fenómeno. A África do Sul concentrou 92% das detecções de ransomware no continente, de acordo com dados da TrendAI. Um dos casos de maior relevo atingiu o Serviço Meteorológico da África do Sul (South African Weather Service), comprometendo sistemas de dados vitais e provocando perturbações com implicações directas na navegação aérea e marítima.
Em outras regiões do continente, os impactos foram igualmente severos. Na Nigéria, um ataque contra o serviço aduaneiro paralisou as operações de desalfandegamento, gerando custos de armazenamento estimados em 18 milhões de dólares. No Uganda, um incidente de segurança atingiu os sistemas de monitorização da rede eléctrica nacional.
Falhas de Governação Digital e Desafios Legislativos
A análise detalhada da infraestrutura digital no continente identificou mais de 6 000 vulnerabilidades activas, com maior incidência na África do Sul, Quénia e Nigéria — precisamente as nações com maior volume de utilizadores de Internet. A maioria destas falhas decorre de equipamentos desactualizados, redes desprotegidas e plataformas de gestão mal configuradas, evidenciando lacunas graves na manutenção e na higiene digital.
Um exemplo claro dessas fragilidades ocorreu na Namíbia, onde a vulnerabilidade num portal administrativo de uma operadora de telecomunicações expôs cerca de 500 mil registos pessoais e financeiros. O incidente demonstrou que a ausência de uma governação tecnológica eficaz representa um risco tão elevado quanto a escassez de investimento em novos sistemas.
Apesar dos avanços legislativos em 2025, ano em que 17 países africanos aprovaram ou actualizaram quadros jurídicos contra o cibercrime — incluindo iniciativas do Burkina Faso, Angola, Costa do Marfim, Zâmbia e Ilhas Maurícias (grupo no qual Moçambique ainda não se insere nesta fase) —, a execução prática destas leis enfrenta barreiras. A discrepância na admissibilidade de provas electrónicas, a morosidade nos processos de cooperação jurídica internacional e as assimetrias na conservação de dados continuam a dificultar o combate célere a este tipo de criminalidade.