Incerteza e Revolta: Sobreviventes das Cheias em Xai-Xai Pedem Contas ao Governo
O cenário pós-inundações na cidade de Xai-Xai está a ser marcado por um clima de profunda indignação. Milhares de famílias que perderam tudo para a fúria das águas denunciam agora um esquema de desvio de donativos que ocorre à “calada da noite” nos centros de acomodação. As vítimas exigem que as investigações recentemente iniciadas se estendam a toda a cadeia de gestão distrital e provincial.
Os relatos são desoladores: enquanto as famílias enfrentam carência alimentar e falta de produtos de higiene, bens essenciais como óleo alimentar, mantas e colchões são retirados dos armazéns sem nunca chegarem aos destinatários finais. O escândalo ganhou força após a detenção de altas chefias do governo provincial na última semana de Fevereiro, com seis arguidos já em prisão preventiva por suspeitas de corrupção na gestão da ajuda humanitária.
Desactivação de Centros Gera Desespero
A crise humanitária é agravada pela decisão do Governo de desactivar quatro centros de acolhimento na zona alta da cidade. Cerca de 400 famílias, num universo de mais de 5 mil afectadas, estão a ser forçadas a regressar a áreas da “baixa” de Xai-Xai que ainda se encontram submersas ou cobertas de lixo e lama.
Muitas vítimas relatam que estão a ser “expulsas” das escolas que serviam de abrigo sem qualquer aviso prévio ou condições mínimas de habitabilidade nas suas zonas de origem. Há relatos de casas ainda cercadas por águas paradas e infestadas de cobras, tornando o retorno um exercício de alto risco para a saúde e segurança das populações.
Cenário de Destruição na Baixa de Xai-Xai
Numa ronda efectuada pela equipa do RN em bairros como Malhangalene e Bairro 12, o cenário assemelha-se a uma zona de guerra. A fúria das águas derrubou casas de construção precária e danificou severamente as vias de acesso, dificultando a chegada de ajuda ou o transporte de bens remanescentes.
Para as mais de 35 mil famílias que vivem este período de extrema incerteza na capital provincial de Gaza, a prioridade deveria ser a assistência contínua e a transparência na distribuição dos apoios. A revolta cresce à medida que os sobreviventes percebem que, além da natureza, têm agora de lutar contra a má gestão daqueles que deveriam garantir a sua protecção.

